Tá Doce
- Vander Christian

- 14 de out. de 2018
- 2 min de leitura

Mais uma vez não teríamos a aula de inglês. Era a segunda semana que aquilo acontecia. Já estava ficando chato. Lembro que naquele dia, descemos para o pátio da escola e ficamos lá, separados em grupos, conversando e dando risadas, tudo para afastar o incômodo que a falta de um professor fazia.
Minutos depois, um fusca vermelho chegou fazendo barulho e parou de frente à escola. O fusca só chamou a atenção por conta do barulho, se não ninguém teria notado. Antes que pudéssemos ver quem estava chegando naquele fusca, a diretora pediu que retornássemos para a sala. Segundo ela, o novo professor de inglês estava chegando. Subimos. Uma expectativa grande começou a se manifestar dentro de nós, afinal teríamos um professor novo! O quadro de professores finalmente estaria completo!
E então, pela porta entrou a figura mais estranha que eu já vira. O homem deveria ter uns trinta anos, cabelos arrepiados e tingidos de vermelho. Carregava uma pasta preta nas mãos. A roupa que o sujeito usava era outro detalhe fora do comum: camiseta amarela e a calça composta por duas cores; marrom e azul. Parecia um palhaço. Complicado, mas tenho certeza que todos os meus colegas de sala chegaram a essa conclusão: o nosso novo professor de inglês, era um palhaço!
De fato, ele ensinava a matéria brincando. Mas brincando mesmo! Tirando sarro dos alunos, usando a dinâmica no seu nível mais avançado... E como aprendemos! Inglês nunca foi tão simples! Tão bom... O professor ensinava sem livros e sem encher o quadro com textos enormes... Com o professor de cabelos tingidos, os alunos estavam sempre olhando para frente, o professor não precisava cobrar a atenção deles...
Eu sentia prazer em ir para a escola, só para poder assistir mais uma aula do professor Tá Doce!
No intervalo, ele ficava na fila do refeitório, junto com os alunos. Era a maior bagunça! Ele disse uma vez:
— Aqui, no meio dos alunos é o meu lugar! Aqui eu me sinto um aluno novamente!
O professor Tá Doce, me ensinou que aprender não é só gravar o texto dentro da cabeça. Ele ensinou que aprender é guardar o texto e se lembrar dele, dali uns dois anos, três... A vida toda...
— Isso é aprender, Vander. Quando você grava um texto, provavelmente mês que vem você já terá esquecido.
Aquele professor, que ia para a escola de fusca vermelho, que tinha os cabelos da mesma cor do seu carro e que usava a calça com duas cores, recuperou a vontade de aprender de muitas crianças, enquanto lecionou. O professor Tá Doce espalhou a sua marca, que era como o seu apelido: Tá Doce.
Hoje Tá Doce não leciona mais. Está em outro lugar. Sendo Tá Doce...








Ele era muito bom professor! Pena que faleceu tão jovem...
Que figura hein? Fiquei com vontade de ter aula com esse professor kkk 👏👏👏 👏👏👏