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Orelhões


Imagem de Dean Norris por Pixabay

Muitas coisas estão com os dias contados. Serão descartadas. É o caso dos orelhões. E ver algo tão marcante sendo descartado, causa um sentimento muito ruim. Parece que uma parte de nós também está sendo descartada.

Lembro da infância, logo que o sol ia embora, saía agarrado nas vestes de mamãe rumo ao mercadinho do bairro. Era hora de ligar para uma tia, que morava lá no interior do Paraná. Era hora de saber notícias do pessoal, que quase nunca ligavam para dizer se estava tudo bem. Minha família sempre teve essa obrigação de ligar, afinal, morávamos em São Paulo. O pessoal do interior nunca entendeu direito que, na verdade, só morávamos no estado de São Paulo, longe da capital. Fato é que, assisti muitas vezes, mamãe inserir o cartão no orelhão e dizer:

— Pede para ela descer, vou ligar daqui uns dez minutos.

Sentávamos na calçada, esperando os dez minutos chegar. Dez minutos era o tempo que a telefonista tinha para ir até a casa da minha tia avisar sobre a ligação. Era assim que tínhamos notícias, fofocas e novidades de outro lugar. Tudo pelo orelhão. Dependendo do dia, formava até fila, então tinha que encerrar a conversa logo.

Hoje quase não vejo orelhões por aí. Os poucos que ainda resistem em permanecer nas calçadas, estão em estado deplorável. Cheios de pichações e cartazes sem nenhuma utilidade. Outro dia, flagrei um rapaz correndo em direção a um orelhão, para em seguida chutá-lo com violência. O orelhão chacoalhou, mas se manteve de pé. Pensei em dar uma bronca no rapaz, dizer que o fato do orelhão não ser mais tão usado assim, não significava que era para ser chutado daquela maneira. Não falei. Certamente, apareceria um monte de gente defendendo o fim dos orelhões...

— Isso é passado, ninguém mais usa! — disse uma aluna que estuda na mesma escola que o meu sobrinho.

De fato, ninguém mais usa. Mas eles não merecem ser chutados.

Novos tempos. Já resolvemos tantas coisas através dos orelhões, que eles nunca deveriam acabar. Esse talvez seja um dos maiores defeitos da humanidade: descartar rápido algo que já nos ajudou muito.

Mas, o que esperar? Se até pessoas estão sendo facilmente descartadas...







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VANDER CHRISTIAN




2 comentários


Vander Christian
Vander Christian
25 de jun. de 2019

Me lembro vagamente da época das fichas, Fernanda. Acho que era divertido, kkkk

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Fernanda Caleffi Barbetta
Fernanda Caleffi Barbetta
24 de jun. de 2019

Eu sou do tempo em que se usava ficha para telefonar nos orelhões...saudades. Parabéns pela crônica.

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Vander Christian
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